8.7.09



Morar com ela, em seu apartamento, naturalmente era necessário (...) Andava em toda parte no imenso pardieiro, em toda parte onde a adivinhava. Não a seguia como uma sombra, pois a sombra às vezes desaparece, mas livre de todos os seus passos, fazendo tudo que desejava, sua liberdade passava sempre pela minha, e se ela se encontrasse um momento sozinha, nesse momento ela me encontrava ainda mais em todas as perguntas infinitas que ela sabia que eu lhe faria sobre esse momento e sobre todos os outros em que ela vivera só. É notório que falo pouco. Mas a certas horas, eu era levado a falar por uma força tão premente, eu me sentia obrigado a transformar em tantas palavras insignificantes os mais simples detalhes da vida, que minha voz, tornando-se o único espaço onde eu a deixava viver, a forçava, ela própria, a sair de seu silêncio e lhe dava uma espécie de certeza, de consistência física que de outro modo lhe teria faltado. Tudo isso pode parecer infantil. Não importa. Essa infantilidade foi forte o bastante para prolongar uma ilusão já perdida e forçar a estar ali o que não estava mais ali. Parece-me que nessa tagarelice havia a gravidade de uma única fala, a reminiscência desse "Vem" que eu lhe tinha dito, e ela tinha vindo, ela nunca mais poderia distanciar-se.

(em "Pena de morte", Maurice Blanchot)

1 comentários:

Domenico disse...

Nao sabia que o Blanchot tb era Pablao...