24.11.08

novenas expiradas

não pareço preocupado. quer dizer, eu tento, mas sério, dá pra me ver num vídeo, alternando entre janelas estúpidas no firefox, bocejando e eventualmente lembrando-se de que deveria parecer preocupado aos olhos de algum gnomo invisível e justiceiro.
eu tento parecer preocupado, assim como tentava me sentir comovido quando imaginava – forçosamente – a morte da cabrita, a ausência. essa profilaxia era invocada justamente quando, sentindo-me insensível, me ocorria que essa situação poderia ser mero embotamento, mera acomodação. luz excessiva, doce em excesso, língua dormente ou olhos cegos, a segurança da adolescência patrocinada que de repente entrava em evidência como uma ferida que esqueci aberta, e que poderia infeccionar a qualquer instante.


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ms word, double click.
ajeito a bunda confortável na cadeira. afinal, vou escrever, e preciso de um contexto favorável, pois nos últimos dias (meses, anos
meses, anos.
tanto faz, desta vez será de vez. estou decidido e ouço boa música. vou escrever alguma coisa que deve estar entalada na garganta. que garganta? essa minha, que filtra a fumaça que aspiro. a que aspiro, essa fumaça que deve compreender em si um mini-universo sobre o qual posso escrever qualquer coisa. Qualquer coisa, bem-entendido, é a história pela qual vim procurando, com afinco questionável, durante os últimos dias (meses, anos
qualquer coisa, essa, a que venho procurado.
na verdade não a procuro tão bem. Bem mais confortável é a cadeira, e como ela assenta bem a outra cadeira, a minha, que ajeito como posso dentro dos limites de seu encosto quebrado, como proporciona esse alento, sentar-se confortável. sentir-se confortável em sua própria casa, em seu próprio álcool, em sua própria música. que é tão familiar, que soa tão como as músicas dos outros, a música acessível pela internet. os outros, bem-entendi, o resto do mundo, quantos milhões de burguesinhos bem-nutridos que se escudam em signos, profissões, diagnósticos de alguma moléstia recém-nascida.

sou um oportunista, antes de mais nada (“animal político”, quanta economia em uma expressão que desprezei). Nasci com algum ouvido e quis me valer dele. As pessoas com quem convivo, algumas não sabem distinguir um músico de um robô, outras conhecem uns poucos maus músicos e me distinguem deles, outras ainda são otimistas por natureza e projetam em minhas poucas (controladas) emanações musicais equilibradas um músico formidável. muitas têm orelhas e sabem que não serei músico embora.


(textos antigos à guisa de alimento enlatado)

2 comentários:

Domenico disse...

Vc parece preocupado... mas nasceu com algum olvido...

Domenico disse...

JODER TÍO!