28.10.08

pensava que esta mesa seria a preferida dos pedintes. fica ao lado de fora do bar do Léo, e não há portanto cadeira. é uma mesinha alta e redonda. há um balcão às minhas costas, apoio fundamental para as costas cronicamente cansadas na ingestão do chopp que não lembra muito a lenda; mas é a pausa que pode contribuir com o sentido desta caminhada pela Sta. Ifigênia, que perdi há pouco, vencido pela força psicológica da compacta massa de trambiqueiros, religião da sobrevivência que assalta meus sentidos, me hipnotiza, me embriaga à revelia - foi então que me ocorreu a embriaguez deliberada. cada cigarro aceso pendurado na boca de nordestinos vendedores de playstation 2, cada imprecação na boca halitósica de representantes comerciais, cada garota baixa e gordinha me oferecendo halls com olhos cansados, cada homem moreno de bigode esperando uma brecha no trânsito para cruzar a rua, e cada ser humano interrompendo-me com pedidos cruzados de fogo ou cigarros ou ambos, cada um e todos ao mesmo tempo em assalto aos meus sentidos, é como se fosse eu quem o pedisse, como se me fizesse escravo por capricho estético com cores éticas, estilo oriental, quintal de buda mendigo, uma vontade de deixar de ter vontades. é tão especial, é tão forte, é tão indiferente (herói do povo). tão diferente do homem de bigode. tão mais nobre que o bosta da mesa ao lado, macho alfa da mesa ao lado, que domina a conversa com sua presença germânica (maneirismos paulistanos da moóca) em meio aos dois inexpressivos - que não tentam se anular, ouça lá essas opiniões autorizadas pelo Kassab, pela biblioteca dos escoteiros mirins. embriagados e perigosos.
eu me alugo de graça a essa gente, dou voz aos seus pensamentos ao tentar criticá-los - não agora, evidente, que tento glamourizar minha falta de percepção, mergulhando nos exageros do engraxate aos pés de um inexpressivo (gorjeta polpuda que produz votos de uma esfregada bônus na “próxima vez”); um ponto-e-vírgula que já é um pé firmando-se após o tropeço cuja queda seria um final, e vírgula e prossigo (sou o pé firme de Jack em um tropeço sem queda), sou a voz desembargando após o pigarro, na mesa onze (Maluf), contando ou registrando ou inventando uma história real acerca do passeio pela cidade, passeio míope, cigarro que embarga, travessia da rua, canção em um iPod sem fones de ouvido, iminente o ponto final adiado, mas que mal há em um ponto final (já esqueci o intento da frase), a troca de um carro zero por um palito de fósforos na caixa surda do Sílvio Santos
- o macho-bosta avançado em seu desempenho - a tartaruga adiantada ao beatífico Aquiles que a observa de longe, a toma por referência, orienta sempre seu avanço pela fração do passo da tartaruga, e diz “sempre” e quer comprová-lo, não dá seu próprio passo, [agora é hora do clichê era-tudo-um-sonho] eu dialogo com meus personagens, eu estou na história e bebo o quarto chopp e respondo com humor kassabiano ao comentário do besouro rola-bosta sobre a demora no cinzeiro que pedi ao garçom, o cinzeiro que não faz mais sentido ao quarto chopp (R$ 20,00, quero ir embora), a miopia que se detém fio por fio na peruca do ovo, na vírgula engolida, dúvida sobre o próximo chopp (que não quero), na certeza sobre encerrar esta folha sem contar a história (real) que eu tinha em mente, sem lembrar da mercadoria (provável) que eu devo ter que comprar por aqui e não lembro, não lembro, mastigo minhas gengivas, me refestelo perversamente na exasperação do leitor que cordialmente me acompanhava,

rompo a superfície do ovo (e ignoro o vendedor de mini-lanterninhas de luz led), desequilibro em um tropeço deliberado, acordo mais cedo do que a ressaca sem um patrão a cobrar pontualidade, atravesso a rua sem encomendas a cumprir, só pra chegar ao outro lado e emendas e mais vírgulas ou pontos finais que no fim das contas são bons para a declamação de hinos religiosos.

pensava que esta mesa seria a preferida dos pedintes.
sacava um cigarro mas a criança de dois anos chegava, com a mãe em seus passos, dirigindo um irmão em seu carrinho.
dois anos me observaram sorrindo com olhos, dois olhos que tomavam com a mão esquerda a colher da cumbuca sobre a mesa, em um gesto tão natural que só atinei com as pimentas quando a distância entre colher e boca era uma fração exponencial da que havia entre minha mão e a colher.
então Aquiles deu seu passo real; o molho oleoso ungiu de leve uns lábios ávidos, mas pimentas inteiras foram desperdiçadas com a brutal intervenção. houve choro. ofereci um leque de guardanapos à mãe, que observava a cena com alguma curiosidade. “obrigado”, ouvi de seus olhos opacos, um fio de constrangimento junkie. retomava a marcha do carrinho e se despediu dizendo “ainda bem que você não acendeu o cigarro”, que mente estranha.
atravessavam a rua quando percebi na boca o cigarro ao contrário.



2 comentários:

Gi disse...

Será cansaço?
Se não for, o que é?
Útero perfeito dos sentidos e
Fita isolante da idiotice.
Que amor, esse tirou férias.
(dos machos-alfa)

Anônimo disse...

¡No, por favor! cambia tu cigarillo.
d.