13.2.17

ok, joguei o "resta um" até o fim e agora resta nada. Sou um corpo perfeitamente vazio

depois de ter me enchido de afetos, líquidos, filmes, fumaça e cansaço

teve também que aparecer a porra de uma alvorada

(um setting de exorcismo precisa afinal de hora e posição dos astros)

transbordou tudo até que enfim
fez fuuuuu
esvaziou

produziu

a circunstância miraculosa
o momento da musa maldita
a pegadinha do koan

e tudo o que consigo conceber é
outro trocadilho

e algum reflexo

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tenho pés de réptil, vi agora no banheiro
e produzo trabalho unicamente mediante
apocalipses
meu dinheiro nunca é meu
- sempre dádiva de quem me sustenta

estou fora "disso tudo"
estou fora do "tinder" e do "okcupid"
estou fora dos "jogos" "todos"
exceto os particulares - ah esses eu jogo muito meu deus como jogo tanto pra caralho.

tudo que não envolve pessoas tudo o que é de si pra simesmo
sempre que não tem conflito nem bomba de gás
tudo que for automático eu estou dentro

eu vejo gatos onde não tem
ponho espaços onde não precisava
verme de tudo
culpadinho

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um esguicho de mijo final, e então mais um, e depois só mais um, e só mais outro e um depois, a constatação de que nunca vai parar se eu não botar limites, então paro, contenho a corrente infindável e as últimas gotas vão pra cueca mesmo, não tem motivo pra perfumaria se vou dormir sozinho, cueca a máquina lava, tempo se perde pra sempre

"Qual a minha pressa"

"Desconheço"

Tem alguma coisa urgente em algum lugar do mundo que me escapou. Certeza que há algum raciocínio que não li ainda e que talvez dê conta da fome na África e no Brasil ao mesmo tempo - se eu entender direito e conseguir compartilhar direito, porque afinal "a verdade nunca será dita de forma compreensível sem que nela se acredite" (William Blake)

mas não entendo porra nenhuma do que seja muito complexo

então vejo gifs de gatinhos e compartilho posts "de-interesse-público"

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-carta a um filho teórico

quando essa merda parar de funcionar pra você,
você vai ficar TÃO desapontado
TÃO querendo poder voltar no tempo e ter feito cold turkey
ou coisa que o valha
ou ultragás

quando seus rins falharem,
ou seu fígado finalmente entregar os pontos
você vai lembrar dos anos
em que seu corpo regenerava gratuitamente
almoço grátis, meu filho

e vai se dar conta
finalmente
que a vida não é eterna
que a regeneração tinha sido um
dom
quase sobrehumano

que durou muito mais do que deveria

e
vai se arrepender de ter escrito este testemunho
porque não terá mudado um milímetro

18.1.17

ok, é coincidência o suficiente pra mim. Tive o bastante de 5:55, 4:44, 3:33, 2:22 e 22:22 por hoje. Não quer dizer que eu vá fazer algo com isso tudo. Sirvo somente como espaço para que as coisas se estendam por si.
Que se prolonguem pelo quanto acham que precisam.
Que sejam necessárias e redundantes até o tempo acabar.
Que se faça a mentira necessária.

Eu era criança em Manaus. A esta altura tenho certeza de que a lembrança é uma farsa, reimpressão de reimpressões minhas ao longo do tempo em que fui ficando velho - eu bebia uma mamadeira de gelatina quente de framboesa numa rede, num barco. Eu era criança em Manaus. Lembro com certeza de piscina, de um sofá de couro com Toblerone. Farsas, também, provavelmente; não (só) que minha memória me engane, mas que não diz respeito à geometria do cadáver em cena, neste cinema.

É muito cedo pra se começar um romance policial, já disse bem Clarice Lispector. Então acabou que fiz de conta que sou grande, desta vez. Tentei começar um romance policial. Me fodi - não deu tempo de começar propriamente e não sei criar personagens que durem mais que uma madrugada e que ainda por cima se relacionem entre si.

Puta merda.

15.1.17

eu menti.

sei lá sobre o quê, nem quando ou pra quem. Só tive vontade de escrever isso, depois de cheirar meu sovaco nesta madrugada. Estou usando leite de magnésia como desodorante por algum tempo, agora, e se passo mais de um dia sem tomar banho o sovaco começa a cheirar mesmo. Eu meio que gosto, na verdade. Pelo menos neste estágio intermediário. É um cheiro meu que me lembra algo bom, algo decente. Passado este ponto já vira algo mais obsceno mesmo, um cheiro que eu só teria condições de apreciar plenamente numa nega muito gostosa, num frenesi, uma alucinação de granito e umidade imensa.

Sinto falta. Escorregar pra dentro sem camisinha nem preparo que não apontasse reto pra loucura. Cheiro ardido de buceta pelo quarto inteiro, balanço ácido de suores, cheiro da minha porra numa pele incandescente. Dormir com um seio na mão e um corpo cheio apertado no meu.

Beijar um ombro e uma orelha entre um sonho e outro. Cheirar um cabelo adorado e fazer cafuné enquanto não consigo dormir. Não, não sou um cafajeste rematado, só preciso adorar mesmo. É só que agora, com a febre errada, me faz falta esse estado.

14.1.17

puxar um personagem de lugar nenhum. uma pureza imensa, essa, de alguém que surge solamente de um caráter específico, de um humor isolado (e nenhum outro). É sempre uma vogal qualquer ou uma consoante qualquer, e não tem história nenhuma por trás. É sempre algo sem sexo definido nem idade nem raça, algo que vai ter que se encaixar num outro resto do que não existe, que está se equilibrando embaixo disso mesmo que precisa de sua própria definição pra ter ombro, pra ter pé, pra ser a pirâmide de um conto mentiroso, de um desperdício de sangue, fluidos, ossos, músculo, sêmem
vi "inception" em três fases. A primeira não conta, foi há sei lá quantos anos e parei de ver no começo (sim, sou desses, consigo parar de ver um filme quando acho que não rola). Provavelmente estava enjoado de filmes grandes.

A segunda foi ontem, depois de um pequeno documentário sobre Buster Keaton ( https://vimeo.com/146442912 ) (acaba que escapa, às vezes, coisa ou outra decente no meio da barragem de lavagem internética que ponho pra mim comer). Lá pelo final do curta havia o quadro de um corredor girando com gente dentro, em seguida uma das efluências: Inception. Estava procurando, (re)comecei. Avancei meia hora ou algo assim.

Não terminei o filme por motivos de sono incontornável (como costuma ser ultimamente, pra conseguir dormir - não com filmes, especificamente, mas com exaustão física ou mental mesmo). Claro que desliguei tudo adequadamente e escovei os dentes antes de sucumbir.

Enfim, tive sonhos e, como esperava, fui protagonista em parte deles.

A primeira vez que consegui influenciar meus próprios sonhos foi depois de ler um gibi em que o Cebolinha se dava conta, depois de um conselho qualquer, de que o sonhador era ele, e que o monstro que o perseguia era seu. Depois disso, ele fazia o monstro fugir. Fiz o mesmo na época.

Muito aconteceu desde então (nunca estive preso numa caverna por 30 anos). Mas minha vida nos sonhos vem sido estranha faz algum tempo.

Tenho sempre certa noção de que é sonho. Com certa frequência pratico alguns truques. Mas na maior parte venho sido refém de regras maiores.

Consegui encolher os dedos de um policial da ZL que queria me roubar, numa delegacia do Carrão (morei por lá). Eu tinha meu celular recém-comprado - um Ericsson bizarro - e um carrinho de controle remoto (me julguem). Tentava convencê-lo de que era eu quem estava sonhando e não ele. Primeiro encolhi um dedo, depois outro. Eu tinha que olhar em seguida, pra saber se tinha funcionado.

Mesmo com dois dedos a menos, não se intimidava. Meio que sabia que eu não tinha controle. Reduzi sua mão inteira (lembrei de Trump). Piorava.

Consegui transformá-lo numa formiga. Mas fiquei preocupado com a possibilidade dessa formiga (com as cores do uniforme dele) entrar na minha mochila.

E não conseguia fazer minhas outras coisas (que eu carregava em saquinhos plásticos desajeitados) caberem nela. Pasmava: se era eu o sonhador, por que não criava uma mochila grande o suficiente pra todas as coisas? E não criava - era difícil, era cheio de meticulosidades. Não-era-o-caso.

Isso e as dificuldades de cruzar os espaços. Apesar de saber flutuar (e de meio que saber que flutuar não é coisa muito comum hoje em dia), nos sonhos fico patinando em certos cruzamentos ou ventos fortes, realidades grandes.

Talvez seja um acomodamento da inconsciência. Não me esforço pra inventar truques novos faz muito tempo.

Perseverei no sonho um bocado mais, tentando entender as minúncias do celular da Ericsson que eu tinha comprado por lá, que era novo e tinha que ter funções que eu não conhecia (um botão dedicado à fotografias? mas não tinha nem whatsapp, e eu pensava que não precisava resolver isso imediatamente pq não havia mais ninguém no whats que fosse urgente).

Claro que o mar estava engolindo a praia, aos poucos e então rapidamente.

4.1.17

eu podia estar lendo david foster wallace, eu podia estar roubando, eu podia estar matando mosquinhas de banheiro mas estou aqui escrevendo sem saber no que vai dar, sem objetivo, porque não tenho a pachorra de fazer qualquer coisa que envolva um projeto. Penso em descrever meus sonhos mas é meio falcatrua fazer isso, são narrativas prontas e o sentido tá amarrado na minha própria vida - bem, não é tão injusto assim, seria possível, muito escritor se safa com esse recurso. Mas não consigo lembrar direito. Sou preguiçoso demais pra trabalhar logo que acordo. Se tivesse um robô que me servisse café na cama, talvez. Mentira? Verdade é que não acredito no que vejo, não acredito nas minhas mensagens. Tudo que sonho é extensão de devaneio, o pulo no precipício é irrelevante, o carro perdido há anos que encontrei num estacionamento abandonado é uma banalidade de quinze minutos a mais na soneca. Verdade é que inventei uma desculpa pra escrever qualquer coisa.
minha vó Nina. Morreu não lembro que ano, por volta de 2001.
Sobrou um maço de incensos bastante delgados - japoneses, provavelmente - ela gostava de coisas do Japão. Queimo um deles agora. São os únicos que cabem no porta-incensos que ganhei da última mulher que amei desesperadamente, uns dez anos atrás. Tem muitos outros ainda no maço. Queimo incensos muito raramente. Sou um animal de hábitos estranhos, de humores que surgem sem dizer a que vieram, de repente. Numa tabela de constância eu diria que queimar incenso está bem atrás de queimar pêlos do braço na chama do fogão (que não configura um hábito e sim uma inabilidade motora).
Esses incensinhos são engraçados. Muito cheirosos ainda, depois de mais de quinze anos. São uma herança diretamente consumível, diretamente generosa - de minha avó, que mordeu minha mão em seu leito de morte. Ela, que me deu um budinha de prata que usei no pescoço por vários anos, que me dava sonhos de valsa e pedaços lindos de panetone quando eu era pirralho, pediu pra que eu aproximasse minha mão. E mordeu. Cabeça raspada, cama de doente, meu avô em outro quarto (morreria um ano depois), ela pediu que me aproximasse, e eu esperava alguma fofurinha, algo típico de vovó, mas não - era uma mordida, e com toda a força de que dispunha, que era pouca. Esse choque seguiu comigo, essa minha falha de empatia seguiu comigo até então.
Vó, seu incenso agora. Vó, fui um fedelho insensível - tive que virar velho eu mesmo pra tentar agora processar sua revolta amorfa, sua necessidade de expressar de alguma forma, com a vida que lhe restava, que não, não estava ok ser a boa vovozinha, que não estava ok ser tratada logo no fim da linha com a comiseração imbecil de um adolescente que ainda por cima calhava de ser do seu sangue. Saiba, vó; saiba, Edméa, sua irmã: hoje acho que entendo menos pior. Que nunca entenderei o que deve ter sido ser mulher na época em que viveram, mas tenho um pouco menos de falta de noção, agora. O incenso se apagando agora como se um timer de cozinha apitasse - a coruja pink que dei de presente pra minha mãe que deveria ser um timer para acertar o tempo de ovos moles (que comprei no mercado municipal de curitiba, um presente chinês sem relação com a localidade mas que era uma conversa que a gente teve sobre o tempo dos ovos) - mas não é precisa e é inútil, portanto. O incenso se apaga sem ruído, mas não desgrudei os olhos dele e a desaparição da brasa acaba sendo barulhenta o suficiente.
A desaparição da brasa acaba sendo barulhenta, ouvi dizer. Eu amava, me ouvi dizer, nos últimos dias. Acho que amo fácil. E expresso com dificuldade, porque é tão fácil de entender errado, porque entendo amar ainda com os olhos semibudistas que tento renegar.