23.11.09

Eh, latido LÚGUBRE. É que tenho o café, é que. Um cão, assustado. Lúgubre. Eu bebo o café na caneca vermelha, por dentro é branca, eu bebo o café. Muito me agrada. Café solúvel. Me falta o cigarro, ah, eh, esse me falta. E eu, o que é que tenho, que ando assustado? LÚGUBRE. Na rua, no fundo do quintal do vizinho, o pobre. Cão assustado, um ganido fino e comprido. Eu bebo o café e exalo o cigarro que não fumei. Eu tenho tanta mentira pra contar, tanta história que, ah, eu ESCREVO – é isso, eu escrevo e não ando escrevendo. Mentira, só pode ser, acontece que não escrevo, e me assusta a feiúra disso. Um cigarro, só podia ser, eu queria inventar um cigarro, nesta história haveria de ser assim: um cigarro. Ponto. Então o protagonista (eu) saía para o banco. Assustado, sem dúvida, com o claro sol da rua, e sem o mal-fôlego do cigarro (que não fumou, importante dizer, esclarecer estes pontos – é tudo VERDADE), subiria a Cerro Corá em direção ao bolsão de bancos. Ele só o faria agora porque estava antes em dúvida acerca do banco de dados que precisa construir em visual basic e não sabe como. Um banco de dados, ele precisa (e teria ajuda de um amigo instruído, se o pedisse; mas não, ainda não); e vai ao banco. Depositar seus cheques, seus negócios, também emperrados, que não se sustentam. Planejando PLANEJANDO ir à fábrica no dia seguinte e não hoje, não hoje que choveu muito e ir de ônibus pode ser desastroso, mesmo com um guarda-chuva desses de cinco reais que ele tem e omitiu *. Mas um cigarro seria pra já – ainda não, mais mentiras, mais história dentro da pequena história, visto que na realidade não há vontade, ao menos agora ao menos depois do café solúvel, contrário ao bom-senso mas a vontade mesmo era antes e depois, agora queria mesmo era dormir mais um pouco, ainda que não possa, ainda que fosse insensato até mesmo interromper, com uma história como esta, o fluxo de impasses que constitui um dia como este.

* Pequena omissão que não haveria de comprometer a história toda, pressupõe-se, e não compromete mesmo, ainda que por isso (e havia o amigo a quem pedir ajuda, mas não hoje AINDA não

1.10.09



"Lembrando-se destas coisas enquanto aprontavam o baú de José Arcadio, Úrsula se perguntava se não era preferível se deitar logo de uma vez na sepultura e lhe jogarem a terra por cima, e perguntava a Deus, sem medo, se realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro para suportar tantas penas e mortificações; e perguntando e perguntando ia atiçando a sua própria perturbação e sentia desejos irreprimíveis de se soltar e não ter papas na língua como um forasteiro e de se permitir afinal um instante de rebeldia, o instante tantas vezes desejado e tantas vezes adiado, para cortar a resignação pela raiz e cagar de uma vez para tudo e tirar do coração os infinitos montes de palavrões que tivera que engolir durante um século inteiro de conformismo.
— Porra! — gritou.
Amaranta, que começava a colocar a roupa no baú, pensou que ela tinha sido picada por um escorpião.
— Onde está? — perguntou alarmada.
— O quê?
— O animal! — esclareceu Amaranta.
Úrsula pôs o dedo no coração.
— Aqui — disse."

("Cem anos de solidão", Gabriel Garcia Márquez)

30.9.09

querido diário:

hoje extirpei meu apêndice mais inflamado.

8.7.09


"Quanto mais alto o coqueiro, mais alto o coqueiro." (Confúcio)



Morar com ela, em seu apartamento, naturalmente era necessário (...) Andava em toda parte no imenso pardieiro, em toda parte onde a adivinhava. Não a seguia como uma sombra, pois a sombra às vezes desaparece, mas livre de todos os seus passos, fazendo tudo que desejava, sua liberdade passava sempre pela minha, e se ela se encontrasse um momento sozinha, nesse momento ela me encontrava ainda mais em todas as perguntas infinitas que ela sabia que eu lhe faria sobre esse momento e sobre todos os outros em que ela vivera só. É notório que falo pouco. Mas a certas horas, eu era levado a falar por uma força tão premente, eu me sentia obrigado a transformar em tantas palavras insignificantes os mais simples detalhes da vida, que minha voz, tornando-se o único espaço onde eu a deixava viver, a forçava, ela própria, a sair de seu silêncio e lhe dava uma espécie de certeza, de consistência física que de outro modo lhe teria faltado. Tudo isso pode parecer infantil. Não importa. Essa infantilidade foi forte o bastante para prolongar uma ilusão já perdida e forçar a estar ali o que não estava mais ali. Parece-me que nessa tagarelice havia a gravidade de uma única fala, a reminiscência desse "Vem" que eu lhe tinha dito, e ela tinha vindo, ela nunca mais poderia distanciar-se.

(em "Pena de morte", Maurice Blanchot)

15.4.09

haikai ou miguelagem


exausto, não posso dormir, que há muito a fazer; mas não posso fazer, pois estou exausto.

14.4.09

vazio de forma e de fome. voluntarioso
apanha o ônibus sem critério
gasta seus créditos todos em passagens de retorno e punhados de pregos
o tormento que haverá de purgar em marteladas gravuras no cerne da madeira
a verve do suplício a carne do verme

em um apartamento no litoral paulistano há quadros pendurados na parede.
a tela nunca secou propriamente - sobre o óleo fresco se depositou camada sobre camada de poeira. demão constante de maresia. anos a fio, iptu, condomínio, vagas intenções de anúncio nos classificados de venda de imóveis. faz muito tempo que ninguém mais vai lá. não é que não interessa o mar, não é vizinhança indesejável

- os quadros que ninguém vê.