"Quanto mais alto o coqueiro, mais alto o coqueiro." (Confúcio)
8.7.09
Morar com ela, em seu apartamento, naturalmente era necessário (...) Andava em toda parte no imenso pardieiro, em toda parte onde a adivinhava. Não a seguia como uma sombra, pois a sombra às vezes desaparece, mas livre de todos os seus passos, fazendo tudo que desejava, sua liberdade passava sempre pela minha, e se ela se encontrasse um momento sozinha, nesse momento ela me encontrava ainda mais em todas as perguntas infinitas que ela sabia que eu lhe faria sobre esse momento e sobre todos os outros em que ela vivera só. É notório que falo pouco. Mas a certas horas, eu era levado a falar por uma força tão premente, eu me sentia obrigado a transformar em tantas palavras insignificantes os mais simples detalhes da vida, que minha voz, tornando-se o único espaço onde eu a deixava viver, a forçava, ela própria, a sair de seu silêncio e lhe dava uma espécie de certeza, de consistência física que de outro modo lhe teria faltado. Tudo isso pode parecer infantil. Não importa. Essa infantilidade foi forte o bastante para prolongar uma ilusão já perdida e forçar a estar ali o que não estava mais ali. Parece-me que nessa tagarelice havia a gravidade de uma única fala, a reminiscência desse "Vem" que eu lhe tinha dito, e ela tinha vindo, ela nunca mais poderia distanciar-se.
(em "Pena de morte", Maurice Blanchot)
15.4.09
haikai ou miguelagem
exausto, não posso dormir, que há muito a fazer; mas não posso fazer, pois estou exausto.
14.4.09
vazio de forma e de fome. voluntarioso
apanha o ônibus sem critério
gasta seus créditos todos em passagens de retorno e punhados de pregos
o tormento que haverá de purgar em marteladas gravuras no cerne da madeira
a verve do suplício a carne do verme
em um apartamento no litoral paulistano há quadros pendurados na parede.
a tela nunca secou propriamente - sobre o óleo fresco se depositou camada sobre camada de poeira. demão constante de maresia. anos a fio, iptu, condomínio, vagas intenções de anúncio nos classificados de venda de imóveis. faz muito tempo que ninguém mais vai lá. não é que não interessa o mar, não é vizinhança indesejável
- os quadros que ninguém vê.
18.12.08
Confianzas
Gotan Project
Composição: Juan Gelman
se sienta a la mesa y escribe
«con este poema no tomarás el poder» dice
«con estos versos no harás la Revolución» dice
«ni con miles de versos harás la Revolución» dice
y más: esos versos no han de servirle para
que peones maestros hacheros vivan mejor
coman mejor o él mismo coma viva mejor
ni para enamorar a una le servirán
no ganará plata con ellos
no entrará al cine gratis con ellos
no le darán ropa por ellos
no conseguirá tabaco o vino por ellos
ni papagayos ni bufandas ni barcos
ni toros ni paraguas conseguirá por ellos
si por ellos fuera a la lluvia lo mojará
no alcanzará perdón o gracia por ellos
«con este poema no tomarás el poder» dice
«con estos versos no harás la Revolución» dice
«ni con miles de versos harás la Revolución» dice
se sienta a la mesa y escribe
24.11.08
novenas expiradas
não pareço preocupado. quer dizer, eu tento, mas sério, dá pra me ver num vídeo, alternando entre janelas estúpidas no firefox, bocejando e eventualmente lembrando-se de que deveria parecer preocupado aos olhos de algum gnomo invisível e justiceiro.
eu tento parecer preocupado, assim como tentava me sentir comovido quando imaginava – forçosamente – a morte da cabrita, a ausência. essa profilaxia era invocada justamente quando, sentindo-me insensível, me ocorria que essa situação poderia ser mero embotamento, mera acomodação. luz excessiva, doce em excesso, língua dormente ou olhos cegos, a segurança da adolescência patrocinada que de repente entrava em evidência como uma ferida que esqueci aberta, e que poderia infeccionar a qualquer instante.
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ms word, double click.
ajeito a bunda confortável na cadeira. afinal, vou escrever, e preciso de um contexto favorável, pois nos últimos dias (meses, anos
meses, anos.
tanto faz, desta vez será de vez. estou decidido e ouço boa música. vou escrever alguma coisa que deve estar entalada na garganta. que garganta? essa minha, que filtra a fumaça que aspiro. a que aspiro, essa fumaça que deve compreender em si um mini-universo sobre o qual posso escrever qualquer coisa. Qualquer coisa, bem-entendido, é a história pela qual vim procurando, com afinco questionável, durante os últimos dias (meses, anos
qualquer coisa, essa, a que venho procurado.
na verdade não a procuro tão bem. Bem mais confortável é a cadeira, e como ela assenta bem a outra cadeira, a minha, que ajeito como posso dentro dos limites de seu encosto quebrado, como proporciona esse alento, sentar-se confortável. sentir-se confortável em sua própria casa, em seu próprio álcool, em sua própria música. que é tão familiar, que soa tão como as músicas dos outros, a música acessível pela internet. os outros, bem-entendi, o resto do mundo, quantos milhões de burguesinhos bem-nutridos que se escudam em signos, profissões, diagnósticos de alguma moléstia recém-nascida.
sou um oportunista, antes de mais nada (“animal político”, quanta economia em uma expressão que desprezei). Nasci com algum ouvido e quis me valer dele. As pessoas com quem convivo, algumas não sabem distinguir um músico de um robô, outras conhecem uns poucos maus músicos e me distinguem deles, outras ainda são otimistas por natureza e projetam em minhas poucas (controladas) emanações musicais equilibradas um músico formidável. muitas têm orelhas e sabem que não serei músico embora.
(textos antigos à guisa de alimento enlatado)
28.10.08
pensava que esta mesa seria a preferida dos pedintes. fica ao lado de fora do bar do Léo, e não há portanto cadeira. é uma mesinha alta e redonda. há um balcão às minhas costas, apoio fundamental para as costas cronicamente cansadas na ingestão do chopp que não lembra muito a lenda; mas é a pausa que pode contribuir com o sentido desta caminhada pela Sta. Ifigênia, que perdi há pouco, vencido pela força psicológica da compacta massa de trambiqueiros, religião da sobrevivência que assalta meus sentidos, me hipnotiza, me embriaga à revelia - foi então que me ocorreu a embriaguez deliberada. cada cigarro aceso pendurado na boca de nordestinos vendedores de playstation 2, cada imprecação na boca halitósica de representantes comerciais, cada garota baixa e gordinha me oferecendo halls com olhos cansados, cada homem moreno de bigode esperando uma brecha no trânsito para cruzar a rua, e cada ser humano interrompendo-me com pedidos cruzados de fogo ou cigarros ou ambos, cada um e todos ao mesmo tempo em assalto aos meus sentidos, é como se fosse eu quem o pedisse, como se me fizesse escravo por capricho estético com cores éticas, estilo oriental, quintal de buda mendigo, uma vontade de deixar de ter vontades. é tão especial, é tão forte, é tão indiferente (herói do povo). tão diferente do homem de bigode. tão mais nobre que o bosta da mesa ao lado, macho alfa da mesa ao lado, que domina a conversa com sua presença germânica (maneirismos paulistanos da moóca) em meio aos dois inexpressivos - que não tentam se anular, ouça lá essas opiniões autorizadas pelo Kassab, pela biblioteca dos escoteiros mirins. embriagados e perigosos.
eu me alugo de graça a essa gente, dou voz aos seus pensamentos ao tentar criticá-los - não agora, evidente, que tento glamourizar minha falta de percepção, mergulhando nos exageros do engraxate aos pés de um inexpressivo (gorjeta polpuda que produz votos de uma esfregada bônus na “próxima vez”); um ponto-e-vírgula que já é um pé firmando-se após o tropeço cuja queda seria um final, e vírgula e prossigo (sou o pé firme de Jack em um tropeço sem queda), sou a voz desembargando após o pigarro, na mesa onze (Maluf), contando ou registrando ou inventando uma história real acerca do passeio pela cidade, passeio míope, cigarro que embarga, travessia da rua, canção em um iPod sem fones de ouvido, iminente o ponto final adiado, mas que mal há em um ponto final (já esqueci o intento da frase), a troca de um carro zero por um palito de fósforos na caixa surda do Sílvio Santos
- o macho-bosta avançado em seu desempenho - a tartaruga adiantada ao beatífico Aquiles que a observa de longe, a toma por referência, orienta sempre seu avanço pela fração do passo da tartaruga, e diz “sempre” e quer comprová-lo, não dá seu próprio passo, [agora é hora do clichê era-tudo-um-sonho] eu dialogo com meus personagens, eu estou na história e bebo o quarto chopp e respondo com humor kassabiano ao comentário do besouro rola-bosta sobre a demora no cinzeiro que pedi ao garçom, o cinzeiro que não faz mais sentido ao quarto chopp (R$ 20,00, quero ir embora), a miopia que se detém fio por fio na peruca do ovo, na vírgula engolida, dúvida sobre o próximo chopp (que não quero), na certeza sobre encerrar esta folha sem contar a história (real) que eu tinha em mente, sem lembrar da mercadoria (provável) que eu devo ter que comprar por aqui e não lembro, não lembro, mastigo minhas gengivas, me refestelo perversamente na exasperação do leitor que cordialmente me acompanhava,
rompo a superfície do ovo (e ignoro o vendedor de mini-lanterninhas de luz led), desequilibro em um tropeço deliberado, acordo mais cedo do que a ressaca sem um patrão a cobrar pontualidade, atravesso a rua sem encomendas a cumprir, só pra chegar ao outro lado e emendas e mais vírgulas ou pontos finais que no fim das contas são bons para a declamação de hinos religiosos.
pensava que esta mesa seria a preferida dos pedintes.
sacava um cigarro mas a criança de dois anos chegava, com a mãe em seus passos, dirigindo um irmão em seu carrinho.
dois anos me observaram sorrindo com olhos, dois olhos que tomavam com a mão esquerda a colher da cumbuca sobre a mesa, em um gesto tão natural que só atinei com as pimentas quando a distância entre colher e boca era uma fração exponencial da que havia entre minha mão e a colher.
então Aquiles deu seu passo real; o molho oleoso ungiu de leve uns lábios ávidos, mas pimentas inteiras foram desperdiçadas com a brutal intervenção. houve choro. ofereci um leque de guardanapos à mãe, que observava a cena com alguma curiosidade. “obrigado”, ouvi de seus olhos opacos, um fio de constrangimento junkie. retomava a marcha do carrinho e se despediu dizendo “ainda bem que você não acendeu o cigarro”, que mente estranha.
atravessavam a rua quando percebi na boca o cigarro ao contrário.